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Marcos Araujo, Estudante de Direito
Marcos Araujo
Comentário · há 2 anos
"(...) E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados (...)

Caro Hyago, ao longo do seu texto encontrei algumas adversativas que demonstraram uma necessidade grande de explicação do que havia escrito no período imediatamente anterior, uma espécie de metalinguagem, diria. E esse esforço, presumo, é aquele típico de uma sociedade que precisa inventar e costurar uma realidade social paralela para não ter o esforço de rever privilégios (rever privilégios é um exercício difícil, custa). Nobre colega, você já pensou sobre os privilégios que te competem?

O racismo no nosso país é estrutural, meu caro (Salve Gilberto Freire, Darcy Ribeiro, Sérgio B. de Hollanda!!!). O que significa dizer que algumas pessoas dentro desse sistema colherão os louros dos privilégios que possuem, tantas vezes travestidos de mérito, e outras vão colher as consequências. As consequências da reificação e desumanização do negro pelo inferno da escravidão e posteriormente de uma pretensa (e mentirosa) democracia) racial deixou e deixa grandes rastros, suponho que conheça nenhum deles na pele.

Esse papo de subjetivismo para identificação da raça é digno de debate; contudo, fora do mundo das ideias, melhor dizendo, nas ruas, não é difícil segmentar, estigmatizar, eleger inimigos. Você, pessoa de pele branca, não pode e nem deve tomar o lugar de fala das pessoas negras e demonstra ignorar as estatísticas que estão aí ululando para que todo mundo ouça (a internet também se presta ao papel da informação, explore mais, não seja preguiçoso). É sabido quem é campeão nos autos de resistência, é sabido que quanto mais melanina maiores são as chances de revistas policiais, é sabido que às vezes o que diferencia um usuário de drogas de um traficante é menos a quantidade do que a cor da pele e a classe social, pois não?

Aliás, por falar em tráfico, por que não incluir nessa conta a criminalização da pobreza nesse país? O tráfico chega onde o Estado ignora, ou só chega geralmente pelo aparelho repressivo da polícia, para manter cada um no seu lugar e nesse quesito as favelas é e serão sempre o lugar errado, para a favela resta o lugar errado e a hora errada. Quem vive nas favelas, Hyago? Como pontuou Brum quando da última chacina em Osasco, quando a favela será o lugar certo e terá a hora certa? Seria capaz de responder, meu caro? A atuação genocida e violenta da polícia nas comunidades carentes é habitual e o silêncio de boa parte da sociedade se dá pelo fato que os corpos que ocupam aquele espaço não contam (a não ser para servir de mão de obra precária para o andar de cima). São corpos que não contam.

Eu, honestamente, adoraria viver nesse mundo asséptico e bonito cujo" preconceito já diminuiu muito ", mas aqui não é o Rancho da Pamonha e, se me permite, arrisco dizer que aqui você não conseguiu desconstruir absolutamente mito nenhum. Aliás, só a utilização desse termo," mito ", já indica o quanto desconhece e desrespeita a situação vivida pelos pretos e pobres desse país. Acredito que é do senso comum o ponto de partida para que seja possível desconstruí-lo dialeticamente até alcançar o cerne das questões sociais que nos dispomos a discutir; contudo, o que aqui foi registrado é" achismo " para não dizer má-fé. O colega de pele branca, não sei de hétero ou homossexual, cisgênero, com diploma de ensino superior, habilitado pela OAB, certamente ocupou um lugar de fala que não lhe pertence para prestar um verdadeiro desserviço. Bote os pés no chão, reconheça seus privilégios.

Deixo algumas dicas:

http://extra.globo.com/casos-de-policia/pesquisa-da-anistia-internacional-mostra-que-maioria-dos-autos-de-resistencia-contra-homens-negros-fica-sem-solucao-17060150.html

http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/12829-12830-1-PB.pdf

http://www.ffch.ufba.br/spip.php?article489
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